Home Data de criação : 08/12/23 Última atualização : 11/10/17 11:34 / 59 Artigos publicados




Cedella Marley O pequeno Robert Nesta Marley nem chegou a conhecer o pai direito. Cedendo a pressões familiares, o Capitão Marley deixou seu filho Bob e a mãe Cedella. Apesar disso, continuou a sustentá-los financeiramente e, quando completou cinco anos, ele o levou consigo para uma temporada de um ano em Kingston, capital da Jamaica. No ano seguinte, o garoto voltaria a morar com a mãe e os dois se instalariam definitivamente em Kingston, em meados da década de 50, quando Cedella, passando por dificuldades como mãe solteira, resolve tentar a sorte procurando emprego na cidade grande. Acabam por engrossar a legião de miseráveis abarrotada numa das maiores favelas da cidade, Trench Town, na zona oeste de Kingston, chamada assim por ter sido construída sobre as antigas valas (trenches) que serviam de esgoto à cidade. Lá, ele conhece outro garoto, Neville “Bunny” Livingstone, que compartilhava com ele uma grande paixão pela música. Os dois se valiam de latas e instrumentos improvisados para imitar seus grandes ídolos da época: Ray Charles, Fats Domino e Curtis Mayfield. Após um curto período trabalhando numa funilaria, Bob resolveu perseguir essa paixão. Ele e Bunny receberam a ajuda de um cantor de trench Town, Joe Higgs, que os apresentou a um terceiro garoto, Peter(McIn)Tosh. Naquela época, o ritmo de maior sucesso no país era o ska, uma mistura de vários outros ritmos, como o mento e o calipso, com o jazz, que chegava à ilha através de fracos sinais de rádio vindos do continente americano. Jimmy Cliff estoura nas paradas da ilha pela primeira vez, com apenas catorze anos. Mais um estímulo para Bob e seus amigos seguirem em frente. Wailing Wailers Em 1961, um teste para o empresário Leslie Kong leva Bob a gravar seu primeiro single, “Judge Not”, aos dezesseis anos, seguido de “One More Cup of Coffee”(1962). Mas, Kong atrasa os pagamentos (quando paga) e Bob resolve deixá-lo definitivamente. Em 1963, forma a banda Wailing Wailers com os amigos Bunny Livingstone e Peter Tosh. Em seus primeiros shows, ganham a simpatia do percussionista Alvin Patterson, que os põe em contato com alguém fundamental para o sucesso do grupo nessa primeira fase: o músico e o produtor Clement “Coxsone” Dodds. Clement Coxsone Dodds Dodds bancou um single do trio, “Simmer Down”. que explodiu nas paradas jamaicanas e lá permaneceu durante dois meses. Nessa época, outros três músicos, Beverly kelso, Junior Braithwaite, juntaram se ao grupo, mas foram largando o aos poucos, até deixarem a banda em sua formação original novamente. Em suas primeiras gravações, os Wailers contaram com vários músicos de ska do Coxsone Studio One. Bob era líder da banda e também autor da maioria das canções. Cerca de trinta singles colocou a banda no gosto popular em 1965:” It Hurts To Be Alone “,”Rule Them Rudie”. Noites de Reggae O ska começava a perder seu apelo em favor de um ritmo mais melodioso e sensual, o RockSteady. Marley percebeu isto e quis mudar também. Os velhos integrantes dos Wailing Wailers deram lugar a rita marley e sua prima, Dream. Bob, Bunny, Peter e suas novas companheiras eram agora, apenas The Wailers. A crença Rastafary passou a assumir lugar de destaque na vida de Bob à medida em que ele ia se tornando cad vez mais atraído pela filosofia de vida que ele pregava. Suas músicas passariam a refletir essa escolha, tornando se mais espirituais e engajadas socialmente. Toda essa transformação desagradara ao produtor Clement Dodds, que acabou rompendo com o grupo. Então Bob e os Wailers resolvem fundar seu próprio selo, o Wail’N'Soul’M Records(ou Wailing Soul), o qual, pela pouca experiência de seus fundadores, afundaria ali mesmo no final de 1967. Compensado a maré de azar, a primeira filha de Bob nasce no mesmo ano. Ziggy, o primeiro filho homen, viria em 1968. Para salvar os Wailers, entra em cena o genial Lee Perry, que ajuda a banda a produzir alguns de seus grandes momentos: “Soul Rebel”, “Duppy Conqueror”, “400 years”, “Small Axe”… Seus discos passam a sair pela JAD Records e, em 1970, os Wailers acolhem os irmãos Barrett: Aston “Family Man”no baixo e Carlton na bateria, dois ases a parte ritmica. O single “Run for Cover”, também de 1970, marca o início de um novo selo da banda. Tuff Gong (o apelido dado a Bob quando ele era adolescente). Os Wailers não precisavam mais correr em busca de um abrigo. A Tuff Gong deu certo e os sucessos começaram a vir em intervalos cada vez menores. Quer dizer, sucesso na Jamaica e imediações. Se os Wailers eram sucesso na ilha, continuavam como meras icógnitas para o resto do mundo. Entretanto, em 1971, Bob viaja para a Europa como músico convidado do cantor norte-americano Johnny Nash, a quem conhecera em 68, para uma excursão pela Suécia e pela Inglaterra. Aproveita a ocasião para assinar contrato com a gravadora CBS, a mesma de Nash. Acaba gravando “Reggae on Broadway”e leva os Wailers para Londres a fim de promover o disco. É o ano de 1972, o reggae é visto como um gênero bom o suficiente apenas para singles e coletâneas baratas. Apesar do esforço da banda. “Reggae on Broadway”não alcança o resultado esperado. Num último lance, Bob resolve ir até os estúdios da gravadora Island Records, em Basing Street, e pede para ver o chefe. Chris Blackwell. Sai de lá com um contrato, o primeiro de grande magnitude jamais feito por uma banda de reggae: oito mil libras de adiantamento para gravar um álbum. O FOGO ARDE “Catch e Fire”, o primeiro álgum de reggae, foi produzido com todos os recursos reservados aos grandes astros da música. A Island promove também uma turnê para Bob Marley and the Wailers nos Estados Unidos e no Reino Unido. O reggae, enfim, chega ao estrelato. O álbum seguinte “Burnin”serve para consolidar o grupo e traz canções antigas misturadas a novas faixas mostrando uma opção absoluta pelo engajamento político: “Get Up Stand Up”e “I Shot the Sheriff”. Esta última chegou ao topo da parada norte-americana na famosa gravação de Eric Clapton. A partir de “Natty Dread”(1975), a banda passar a se chamar Bob Marley & The Wailers. Com esse nome, eles excursionam pela Europa e fazem dois shows históricos no Lyceum Ballroom de Londres. Estes dois shows foram gravados num álgum e tornaram “No Woman, No Cry”figurinha fácil nas paradas de sucesso. Em 1976, a capa da prestigiada revista Rolling Stone começa a febre de reggae também nos Estados Unidos. Bob & The Wailers foram escolhidos a “Banda do Ano”e o album “Rastaman Vibration”encabeça a parada americana. Bob resolve fazer um concerto pela paz em sua terra natal, enrolada até o pescoço em lutas políticas. Essa decisão não agradou a todos. Na tarde do concerto, em dezembro de 76, seis homens armados invadiram a casa do cantor e atiraram nele, em sua esposa, em seu empresário, Don Taylor, e em Don Kinsey. Felizmente, todos se recuperaram dos ferimentos e Bob já estava tocando no concerto Smile Jamaica, dois dias depois, jutamente com Rita, numa camisola de hospital. Bob Marley cantando Rastaman Chant no concerto Smile Jamaica, 05 de dezembro de 1976 Anel Jah Rastafari Os Wailers seguiram Bob até Londres e eles lançaram um novo álgum em 77, “Exodus”, que alcançou o primeiro lugar na Inglaterra e na Alemanha. Numa audiência em Londres, com o neto do Imperador Selassié, o Príncipe Asfa Wossan, o cantor recebe uma honraria inigualável: o anel Jah Rastafari, pertencente ao imperador da Etiópia. O grupo faz outra turnê pela Europa, durante a qual Bob feriu um dedo do pé numa partida de futebol, o ferimento cresceu e o diagnóstico apontou que Bob tinha câncer. PERTO DE JAH Bob Marley prossegue trabalhando no novo disco, “Kaya”, que já estréia na Inglaterra na quarta posição da parada. O disco era uma guinada radical no tipo de música que a banda vinha fazendo até então. Dessa vez, canções de amor e de exaltação à ganja (maconha) eram a tônica do disco. A maconha em questão faz parte dos rituais de iluminação dos Rastafari, que acreditam poder, através dela, ficar mais próximos de Jah (O Senhor). Duas canções puxaram o sucesso deste novo trabalho: “Is This Love?” e “Satisfy My Soul”. Em abril de 78, Bob volta à Jamaica para promover um feito político histórico: durante o One Love Peace Concert, o primeiro-ministro Mike Manley e o líder da oposição, Edward Seaga, apertam as mãos para tentar dar fim aos conflitos. Por causa disso, o cantor foi chamado pela ONU para receber a Medalha da Paz. No final do ano, Bob realiza outro sonho ao visitar, pela primeira vez, três países africanos, O Quênia, o Zimbábue e, claro, a Etiópia. A essa altura, os Wailers já haviam mudado de cara algumas vezes. Livingstone e Tosh sairam da banda no ano anterior para dar lugar a Al Anderson e Bernard “Touter” Harvey, que também saíram para dar lugar a Junior Marvin e Tyrone Downie. As backing vocals Marcia Griffiths e Judy Mowatt também vieram juntar-se a Rita. Todo esse entra-e-sai não comprometeu a qualidade das músicas - a maioria de Marley - nem das apresentações. Muito pelo contrário, Bob cercou-se de profissionais de qualidade. Vídeo Bob Marley em performance espetacular, cantando Jammin no One Love Peace Concert, abril de 78 Ao final da década de 70, Bob Marley & The Wailers mantinha-se na posição de banda mais popular da Europa e no Caribe, além de gozar de ótima posição nos Estados Unidos. Os últimos três albuns - “Babylon by Bus”, “Survival”e “Uprising”- não negaram fogo, mas a saúde de Bob começava a ficar delibitada. Apesar do aval do médico para fazer uma turnê pelos Estados Unidos, ele não conseguiu aguentar por muito tempo. Os primeiros sinais foram desmaios durante a primeira apresentação, no Madison Square Garden, em Nova Iorque. Os médicos diagnosticaram um tumor cerebral e não mais que um mês de vida. Bob, então, fez em Pittsburgh, no Stanley Theatre, a sua última apresentação. O câncer havia se espalhado pelo corpo todo. Entre os tratamentos, o cantor fez uma escala em Miami para ser batizado na Igreja Ortodoxa da Etiópia com o nome de Berhane Selassié. Esgotadasm todas as alternativas ele foi levado para um tratamento na clínica do controverso Sr. Joseph Issels, na Bavária, baseado em remédios naturais - em vão. Bob morreu num hospital, em Miami, no dia 11 de maio de 1981, aos 36 anos. Seu corpo foi levado para a sua cidadezinha natal, Nine Miles, onde foi enterrado após um funeral que contou com a presença de seus milhares de fãs e de dois ex-inimigos, o primeiro-ministro Manley e o líder da oposição Seaga, todos convertidos para a causa de paz do cantor. O Bob Marley Center foi construído em sua homenagem, em Montego Bay, e ainda abriga o Sunsplash Festival. Vários discos com material inédito ou novas coletâneas foram lançados após a sua morte. E muito mais ainda está por ser descoberto, agora que Bob Marley está num lugar de honra, mais perto de Jah. Em novembro de 1980, minha mãe estava recebendo um tratamento para o câncer na Clínica Issels, no refúgio montanhoso de Rotach-Egern, na Alemanha, quando Bob chegou lá. Ela sabia que eu gostava da música de Bob e me mandou um artigo sobre ele de um jornal alemão, que basicamente dizia que ele era um “Superstar do rock do terceiro Mundo”, que em junho havia cantado para dezenas de milhares de pessoas na Alemanha, tocando sua guitarra e entoando canções de liberdade para as pessoas de cor. O artigo dizia que que ele estava criticamente doente, com um câncer de pulmão que se espalhava pelo seu corpo e estava sendo tratado pelo Dr.Issels, depois que especialistas americanos o terem se desenganado. Em fevereiro de 81, fui visitar a minha mãe por dez dias e acompanhei o programa “anticâncer” de Issels. Como em muitos tipos de medicina alternativa, o programa de Issel não era brincadeira. A maioria das pessoas que iam até a sua clínica haviam se submetido a quimioterapias, radioterapias e outros tratamentos que haviam falhado. Infelizmente, Bob estava muito doente e só falava quando falavam com ele. A primeira vez que o vi foi quando ele veio da clínica para a sala de espera. Ele havia acabado de tirar os seus dreadlocks, o que era parte do programa. Ele estava com uma toca de crochê em estilo roots que cobria a sua cabeça careca. Não ficou lá por muito tempo e logo foi chamado para ver o Doutor. A clínica estava sempre cheia. Era difícil conseguir um horário para os tratamentos de raio violeta, onde a luz era focada no corpo por 45 minutos. Uma noite, quando havia poucas pessoas na clínica, o médico jamaicano de Bob fez um acordo com o administrador para que Bob fosse submetido a esse tratamento, junto com outros dois pacientes. No terceiro andar, havia três camas no quarto onde era realizado o tratamento com divisórias que só iam até um pouco acima do chão, então você ficava perto da cabeça das pessoas. Estava perto de Bob, então perguntei a ele como estava lidando com o tratamento, desde que o Doutor Issels o proibira de fumar ganja. Não me lembro exatamente das palavras exatas, mas ele começou a falar sobre a Jamaica. Era quase como se ele estivesse em transe. Falou lenta e pensativamente e descreveu a beleza da Jamaica - as praias de areia branca, o sol quente… Falou com tanto sentimento e amor pela Jamaica que fez você se sentir como se estivesse lá, mesmo que eu soubesse que estava nevando forte lá fora. Era aniversário de Bob naquela semana (6 de fevereiro) e ele convidou algumas pessoas da clínica para uma festa de aniversário em seu apartamento. Antes que chegasse muita gente, ele veio até o quarto de espera e conversamos um pouco. Minha mãe havia lhe contado que eu tocava e quando ela chegou, Bob pediu a sua mãe, Mrs. Booker, para trazer dois violões. Ela se apressou e os trouxe logo. Ele começou a tocar em um violão e eu no outro. Bob não tocou por muito tempo nem muito alto, talvez por uma meia hora, só fazendo uma canja. Todos estavam realmente contentes de vê-lo tocando e tive a impressão de que ele não vinha fazendo isso ultimamente. Também estavam lá Rita, Tyrone Downie, assim como a turma que estava sempre presente. Eles trouxeram um bolo com os dizeres “Feliz aniversário Rei do Reggae”, mas lembro-me que “reggae” estava escrito errado. Infelizmente a maior parte do tempo da festa ele passou deitado no quarto ao lado. Não levou muito tempo para Jah levar Bob para casa. Ele tinha uma presença forte, mesmo quando a doença o havia reduzido a uma fração do que ele era. Ele parecia tão vulnerável e fora do seu ambiente, mas agora sei que ele está em um lugar melhor.” O ano de 1945 foi um grande ano. Foi em 45 que, depois de nove anos de uma guerra que matou milhões de pessoas em todo o mundo, finalmente a paz voltou a reinar na Terra. Em todos os cantos do planeta as pessoas se abraçaram e puderam comemorar o final do mais triste episódio da história da humanidade. Milhares de filhos voltaram para suas casas, famílias se reencontraram e a construção de um novo tempo começou. Entretanto, em 1945 houve outro grande acontecimento, que só alguns moradores da pequena vila de Nine Mile, interior rural da Freguesia de St. Ann (Santa Ana), no norte da Jamaica, comemoraram. Foi no dia 6 de fevereiro desse ano que lá nasceu o menino Robert Nesta Marley, filho de Cedella Booker, uma garota negra de apenas dezoito anos, e do Capitão Norval Marley, do Regimento Britânico das Índias Ocidentais, um inglês branco de 50 anos de idade que, devido a pressões de sua família na Inglaterra, apesar de ajudar financeiramente pouco conheceu o filho. Mas para entender melhor a história desse menino é preciso voltar um pouco mais no tempo. Apesar da escravidão ter sido abolida na Jamaica em 1834, aqueles dias de sofrimento ainda estão na memória dos descendentes de africanos e, misturados com os costumes ingleses, fazem parte da cultura da ilha. Já no começo do século passado a herança africana começava a ter expressão política com Marcus Garvey, um pastor jamaicano que fundou a Associação Universal para o Desenvolvimento do Negro. A organização defendia a criação de um país negro, livre da dominação branca, na África, que recebesse de volta todos os descendentes de africanos exilados na América. Foi inclusive com esse intuito que Garvey chegou a fundar uma companhia de navegação a vapor, a Black Star Line. Mas Marcus Garvey é lembrado na Jamaica também por outro motivo. O pastor, nas suas pregações, costumava repetir uma profecia que logo se espalhou entre a população negra. Ele dizia que logo na África surgiria um Rei negro, o 225º descendente da linhagem de Menelik, o filho do rei Salomão e da rainha de Sabá, que libertaria a raça negra do domínio branco. Anos depois esse rei apareceu. Em 1930 Ras Tafari Makonnen foi coroado Imperador da Etiópia e passou a se chamar Hailè Selassiè. No mesmo momento, os seguidores de Garvey na Jamaica passaram a acreditar que a profecia houvesse sido cumprida e começaram uma nova religião chamada Rastafari. Anos mais tarde, essa religião seria espalhada pelo mundo através da música de um menino chamado Bob Marley. Por volta da década de 50, a capital Kingston era a terra dos sonhos dos habitantes das zonas rurais da Jamaica. Apesar da cidade não ter muito trabalho a oferecer, multidões se dirigiam para lá para fatalmente engrossarem a população das favelas que já cresciam no seu lado oeste. A maior e mais miserável dessas favelas era Trench Town (ou Cidade do Esgoto), assim chamada por ter sido construída sobre as valas que drenavam os dejetos da parte antiga de Kingston. E foi para lá que Dona Cedella se mudou junto com seu filho no final dos anos 50. O menino cresceu nesse ambiente junto com outros meninos de rua e, em especial, seu amigo Neville O’Riley Livingston, mais conhecido como Bunny, com quem começou a tocar latas e guitarras improvisadas em casa. O som que os dois garotos faziam era influenciado pelas emissoras do sul dos Estados Unidos que conseguiam captar nos seus rádios e que tocavam músicas de artistas como Ray Charles, Curtis Mayfield, Brook Benton e Fats Domino, além de grupos vocais como The Drifters que tinham muita popularidade na Jamaica. Nessa época, Bob conseguiu um emprego numa funilaria, mas já tinha a música como grande objetivo de sua vida. A busca desse objetivo ganhou dedicação exclusiva quando uma fagulha da solda com que trabalhava queimou seu olho. O acidente não teve gravidade mas o fez largar o emprego e investir unicamente no aperfeiçoamento da sua música com Bunny. Eles eram ajudados por Joe Higgs, um cantor que apesar de já possuir uma certa fama na ilha ainda morava em Trench Town e dava aulas de canto para iniciantes. Numa dessas aulas Bob e Bunny conheceram outro jovem músico chamado Peter McIntosh. Em 1962 Bob Marley foi escutado por um empresário musical chamado Leslie Kong que, impressionado, o levou a um estúdio para gravar algumas músicas. A primeira delas “Judge Not” logo foi lançada pelo selo Beverley’s. No ano seguinte Bob decidiu que o melhor caminho para alcançar o sucesso era em um grupo, chamando para isso Bunny e Peter para formar os "Wailing Wailers". O novo grupo ganhou a simpatia do percussionista rastafari Alvin Patterson, que os apresentou ao produtor Clement Dodd. Na metade de 1963 Dodd ouviu os Wailing Wailers e resolveu investir no grupo. O ritmo da moda na Jamaica então era o Ska que, com uma batida marcada e dançante, misturava elementos africanos com o rhythm & blues de New Orleans e que tinha Clement “Sir Coxsone” Dodd como um dos seus mais famosos divulgadores. Os Wailing Wailers lançaram o seu primeiro single, “Simmer Down”, pela gravadora Coxsone no fim de 1963 e em janeiro a música já era a mais tocada na Jamaica, permanecendo nessa posição durante dois meses. O grupo então era formado por Bob, Bunny, Peter, Junior Braithwaite e dois backing vocals, Beverly Kelso e Cherry Smith. Nessa época chegou pelo correio a passagem que Dona Cedella, que tinha se casado novamente e mudado para Delaware nos Estados Unidos, conseguiu comprar após muito esforço para juntar dinheiro. Ela desejava dar a Bob uma nova vida na América, mas antes da viagem ele conheceu Rita Anderson e em 10 de fevereiro de 1966 eles se casaram. Marley passou apenas oito meses com a mãe antes de retornar à Jamaica, onde começou um período que teve importância especial no resto de sua vida. Bob chegou em Kingston em outubro de 66, apenas seis meses depois da visita da Sua Majestade Imperial, o Imperador Hailè Selassiè, da Etiópia, que trouxe nova força ao movimento Rastafari na ilha. O envolvimento de Marley com a crença Rastafari também estava crescendo e, a partir de 67, sua música começou a refletir isso. Os hinos dos Rude Boys deram lugar a uma crescente dedicação às canções espirituais e sociais que se tornaram a pedra fundamental do seu real legado. Bob, então, convidou Peter e Bunny para novamente formarem um grupo, dessa vez chamado “The Wailers”. Rita também começava sua carreira como cantora com um grande sucesso chamado “Pied Piper”, um cover de uma canção pop inglesa. A música jamaicana, entretanto, havia mudado. A frenética batida do Ska estava dando lugar a um ritmo mais lento e sensual chamado Rock Steady. A nova crença Rastafari dos Wailers os colocou em conflito com Coxsone Dodd e, determinados a controlar seu próprio destino, os fez criar um novo selo, o Wail’N’Soul. Mas, apesar de alguns sucessos, os negócios dos Wailers não melhoraram muito e o selo faliu no fim de 1967. O grupo sobreviveu, entretanto, inicialmente como compositores de uma companhia associada ao cantor americano Johnny Nash que, na década seguinte, teria um grande sucesso com “Stir It Up”, de Bob. Os Wailers então conheceram um homem que revolucionaria o seu trabalho: Lee Perry, cujo gênio produtivo havia transformado as técnicas de gravação em estúdio em arte. A associação Perry / Wailers resultou em algumas das melhores gravações da banda. Músicas como “Soul Rebel”, “Duppy Conqueror”, “400 Years” e “Small Axe” se não foram clássicos definiram a direção futura do reggae. Em 1970, Aston 'Family Man' Barrett e seu irmão Carlton (baixo e bateria, respectivamente) se uniram aos Wailers. Eles eram o núcleo da banda de estúdio de Perry e haviam participado de várias gravações do grupo. Os irmãos eram conhecidos como a melhor seção rítmica da Jamaica, status que continuariam ostentando pela década seguinte. Os Wailers eram então reconhecidos como grande sucesso no Caribe, mas internacionalmente continuavam desconhecidos. No verão de 1971 Bob aceitou o convite de Johnny Nash para acompanhá-lo à Suécia, ocasião em que assinou contrato com a CBS, que também era a gravadora do americano. Na primavera de 72 todos os Wailers já estavam na Inglaterra, promovendo ostensivamente o single “Reggae on Broadway”, mas sem alcançar bom resultado. Como última tentativa Bob entrou nos estúdios da Island Records, que havia sido a primeira a dar atenção ao crescimento da música jamaicana, e pediu para falar com o seu fundador, Chris Blackwell. Blackwell conhecia a fama dos Wailers e o grupo estava fazendo uma proposta irrecusável. Eles estavam adiantando 4 mil libras para gravar um álbum e para que, pela primeira vez, uma banda de reggae tivesse acesso as mais avançadas técnicas de gravação e fosse tratada como eram as bandas de rock da época. Antes dessa proposta as gravadoras achavam que um grupo de reggae só vendia em singles ou compilações com várias bandas. O primeiro álbum dos Wailers, “Catch A Fire” quebrou todas as regras: era lindamente embalado e fortemente promovido. Era o começo de um longo caminho à fama e ao reconhecimento internacional. Embora “Catch A Fire” não tenha sido um hit instantâneo, o álbum teve um grande impacto na mídia. O ritmo marcante de Marley, aliado às suas letras militantes vinham com total contraste ao que estava sendo feito então. Além disso, a Island promoveu uma turnê do grupo na Inglaterra e nos Estados Unidos, o que era uma completa novidade para uma banda de reggae. Os Wailers chegaram em Londres em abril de 73, embarcando numa série de apresentações que mostraria sua qualidade como banda de shows ao vivo. Entretanto, após três meses, o grupo voltou à Jamaica e Bunny, desencantado com a vida na estrada, se recusou a tocar na turnê americana. No seu lugar entrou Joe Higgs, o velho professor de canto dos Wailers. A turnê americana incluía, além de algumas casas de show, a participação em alguns shows de Bruce Springsteen e Sly & The Family Stone, a principal banda de música negra americana do momento. Mas depois de quatro shows ficou claro que colocar os Wailers abrindo espetáculos poderia ser ruim para as atrações principais. A banda foi então para San Francisco, onde a rádio KSAN transmitiu uma apresentação ao vivo que só foi publicada em 1991, quando a Island lançou o álbum comemorativo “Talkin’ Blues”. Em 73 o grupo também lançou o seu segundo álbum pela Island, “Burnin’”, um LP que incluía novas versões de algumas das suas mais velhas músicas, como: “Duppy Conqueror”, “Small Axe” e “Put It On”, junto com faixas como “Get Up, Stand Up” e “I Shot The Sheriff” (que no ano seguinte se tornaria um enorme sucesso mundial na voz de Eric Clapton, alcançando o primeiro lugar na lista dos singles mais vendidos nos Estados Unidos). Em 74 Marley passou uma grande parte do seu tempo no estúdio trabalhando nas sessões que resultaram em “Natty Dread”, um álbum que incluía músicas como “Talkin’ Blues”, “No Woman No Cry”, “So Jah Seh”, “Revolution”, “Them Belly Full (But We Hungry)” e “Rebel Music (3 o’clock Roadblock)”. No início do próximo ano, entretanto, Bunny e Peter deixariam definitivamente o grupo para embarcar em carreiras solo enquanto a banda começava a ser conhecida por Bob Marley & The Wailers. “Natty Dread” foi lançado em fevereiro de 75 e logo a banda estava novamente na estrada. A composição harmônica perdida com a saída de Bunny e Peter havia sido substituída pelas I-Threes, um trio feminino composto pela esposa de Bob, Rita, além de Marcia Griffiths e Judy Mowatt. Entre os concertos, os mais importantes foram as duas apresentações no Lyceum Ballroom de Londres que até hoje são lembradas entre as melhores da década. Os shows foram gravados e logo o disco, junto com o single “No Woman, No Cry”, estava nas paradas de sucesso. Em novembro, quando Marley voltou a Jamaica para tocar num show beneficiente com Stevie Wonder ele já era obviamente o maior superstar da ilha. “Rastaman Vibrations”, o álbum seguinte, lançado em 76, atingiu o topo das paradas americanas e é considerado por muitos a mais clara exposição da música e das crenças de Bob. O LP incluía músicas como “Crazy Baldhead”, “Johnny Was”, “Who The Cap Fit” e, talvez a mais significativa de todas, “War”, cuja letra foi extraída de um discurso do Imperador Hailè Selassiè, nas Nações Unidas. Com o sucesso internacional cresceu a importância política de Bob Marley na Jamaica, onde a fé Rastafari expressa por sua música alcançava forte ressonância na juventude dos guetos. Como forma de agradecimento ao povo da ilha, Bob decidiu dar um concerto aberto no Parque dos Heróis Nacionais de Kingston, em 5 de dezembro de 1976. A idéia era enfatizar a necessidade de paz nas ruas da cidade, onde as brigas de gangues estavam causando confusão e mortes. Logo depois do anúncio do show, o governo convocou eleições para o dia 20 de dezembro. Isso deu nova força à guerra no gueto e, na tarde do concerto atiradores invadiram a casa de Bob e o alvejaram. Na confusão os atiradores apenas feriram Marley, que foi levado a salvo às montanhas na cercania da cidade. Entretanto ele resolveu fazer o show de qualquer maneira e subiu ao palco para uma rápida apresentação em desafio aos seus agressores. Foi a última apresentação de Bob na Jamaica por oito meses. Logo após o show ele deixou o país para viver em Londres, onde gravou seu próximo álbum, “Exodus”. Lançado no verão daquele ano, “Exodus” consolidou o status internacional da banda, ficando nas paradas da Inglaterra por 56 semanas seguidas e tendo seus três singles - “Waiting In Vain”, “Exodus” e “Jammin’” - com grandes vendagens. Em 78 a banda capitalizou novo sucesso com “Kaya”, que alcançou o quarto lugar na Inglaterra logo na semana seguinte do lançamento. O álbum mostrava um novo ângulo de Marley, com uma coleção de canções de amor e, claro, homenagens ao poder da “Ganja”. Do álbum foram extraídos dois singles: “Satisfy My Soul” e “Is This Love”. Ainda em 78 aconteceriam mais três eventos com extraordinária importância para Marley. Em abril ele voltou à Jamaica para o “One Love Peace Concert”, quando fez com que o Primeiro-Ministro Michael Manley e o líder da oposição Edward Seaga se dessem as mãos no palco. Ele foi então convidado para ir à sede das Nações Unidas, em New York, para receber a Medalha da Paz. E, no fim do ano, Bob visitou a África pela primeira vez, indo inicialmente ao Kenya e depois à Etiópia, o lar espiritual Rastafari. A banda havia recém terminado uma turnê pela Europa e América que rendeu o segundo álbum ao vivo: “Babylon By Bus”. “Survival”, o nono álbum de Bob Marley pela Island foi lançado no verão de 1979. Ele incluía “Zimbabwe”, um hino para a Rodésia, que logo seria libertada, junto com “So Much Trouble In The World”, “Ambush In The Night” e “Africa Unite”. Como indica a capa, que contém as bandeiras das nações independentes, “Survival” foi um álbum em homenagem à solidariedade Pan-Africana. Em abril de 1980, o grupo foi convidado oficialmente pelo governo do recém libertado Zimbabwe para tocar na cerimônia de independência da nova nação. Essa foi a maior honra oferecida à banda e demonstrou claramente a sua importância no Terceiro Mundo. O próximo disco da banda, “Uprising”, foi lançado em maio de 80 e teve sucesso imediato com “Could You Be Loved”. O álbum também trazia “Coming In From The Cold”, “Work” e a extraordinária faixa de encerramento, “Redemption Song”. Os Wailers então embarcaram na sua maior turnê européia, quebrando recordes de público pelo continente. A agenda incluía um show para 100 mil pessoas em Milão, o maior da história da banda. Bob Marley & The Wailers eram a maior banda na estrada naquele ano e “Uprising” estava em todas as paradas da Europa. Era um período de máximo otimismo e estavam sendo feitos planos de uma turnê na América em companhia de Stevie Wonder no final do ano. No fim da turnê européia Marley e a banda foram para os Estados Unidos. Bob fez dois shows no Madison Square Garden, mas logo após caiu seriamente doente. Três anos antes, em Londres, ele havia ferido o dedo do pé jogando futebol. O ferimento se tornou canceroso e, apesar de ter sido tratado em Miami, continuou a progredir. Em 1980, o câncer, em sua forma mais virulenta, começou a se espalhar pelo corpo de Bob. Ele controlou a doença por oito meses, fazendo tratamento na clínica do Dr. Joseph Issels, na Bavária. O tratamento de Issels era controvertido por só usar remédios naturais e não tóxicos e, por algum tempo, pareceu estabilizar a condição de Bob. Entretanto, repentinamente a luta começou a ficar mais difícil. No começo de maio ele deixou a Alemanha para voltar à Jamaica, mas não completou a viagem. Bob Marley morreu num hospital de Miami na segunda-feira, 11 de maio de 1981. No mês anterior, Marley havia sido agraciado com a Ordem do Mérito da Jamaica, a terceira maior honra da nação, em reconhecimento à sua inestimável contribuição à cultura do país. Na quinta-feira, 21 de maio de 1981, o Honorável Robert Nesta Marley O. M. recebeu um funeral oficial do povo da Jamaica. Após o funeral - assistido tanto pelo Primeiro-Ministro como pelo líder da oposição - o corpo de Marley foi levado à sua terra natal, Nine Mile, no norte da ilha, onde agora descansa em um mausoléu. Bob Marley morreu aos 36 anos, mas a sua lenda permanece viva até hoje.

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